Uma vendedora de empadas…

Suportei a fome o maior tempo que pude; já passavam das onze e meu colega ainda não

havia chegado. A loja cheia e o relógio, agora, marcava onze e meia. O telefone tocou; era ele

dizendo que estava atrasado, como se não soubesse, e completou que ainda demoraria um pouco.

Precisava comer alguma coisa; a fome parecia corroer minhas entranhas: é que ela afeta meu

humor e meu raciocínio. Sei que parece exagero, mas, fazer o quê? É assim que sinto.

Entrou uma mulher que nunca havia visto antes. “Olá, tudo bem com você?” – disse

entusiasmada. Estranhei o jeito que ela falou, mais parecíamos velhos amigos. “Tudo bem” – disse.

“Hoje eu trouxe umas empadinhas que eu mesma fiz; estão uma delícia! Tenho certeza que vai

gostar.” Bom, as empadinhas não são meu salgado preferido, mas meu estômago logo avisou: sua

última chance. “Compra a empadinha, compra” – repetiu ela. “Quanto custa?” “Dois real.” “E de

que que elas são?” “De queijo e de frango… Compra a empadinha, compra” – repetiu de novo.

Comecei a ficar meio nervoso com a insistência dela. “Tá, eu compro.” Cocei a cabeça e

pensei: “isso não vai dar certo”. Com um sorriso, levantou a tampa do cesto, torceu a boca

escolhendo a empada pensativamente, de queijo ou frango. Frango. Continuou olhando para dentro

da cesta. Com a mão remexia as empadas até que finalmente escolheu uma. Aqui vale uma

explicação: ela disse que as empadas não deviam ficar soltas, por isso mesmo as deixava nas

forminhas de metal. Isso foi seu erro. Com a empada escolhida na mão, virou-a e, com um tapinha

na forminha, repetia: “Sai, empadinha, sai…”

Cocei a cabeça de novo. A empadinha não saiu. Ela repetiu a operação “Sai, empadinha,

sai”. Esperei calmamente, mas reparei que já havia chamado a atenção dos clientes que assistiam

curiosos ao acontecido. Disse: “Não tem problema, depois eu experimento sua empadinha.” “Não,

espera um pouco, ela vai sair… Né, empadinha?” – insistiu. O pessoal começou a achar graça da

situação e, pra não estender muito, entreguei o dinheiro e pedi que ela passasse mais tarde com a

empadinha. Aí ela ficou brava. “De jeito nenhum! O senhor comprou a empadinha e vai levar

empadinha! Sai, empadinha, sai!” – com mais força bateu e a empadinha saiu. “Aêêê!!” – o pessoal

da loja bateu palma e tudo. Ela olhou pra empadinha, colocou no guardanapo e me entregou. Saiu

vitoriosa e agora passa toda sexta. Perguntou se eu agradei da empadinha de frango; disse que sim

pra não criar mais confusão. A empadinha que ela me deu era de queijo.



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