Nasce o filho

Estava diante da morte pela segunda vez. Assim como da primeira, em casa e com

alguém da família. Ernâni acreditava estar preparado para esse dia, mas nunca se está preparado

para perder alguém que se ama. Quando tinha apenas doze anos, seu pai morreu em casa,

assistindo um jogo de futebol na televisão. Um ataque fulminante do coração. Estava em seu

quarto e sua mãe na cozinha, quando ouviram o copo se quebrar ao cair no chão e um grunhido.

Seu pai estava com a mão sobre o peito e a cabeça caída sobre o corpo; a televisão ligada junto

com o rádio que também transmitia o jogo; era assim que ele gostava.

Sua mãe sentou-se ao lado dele, beijou-lhe o rosto e começou a chorar. Ernâni desligou o

rádio, deixou a televisão ligada como se o pai ainda pudesse assistir, e abraçou sua mãe. Foi então

que Ernâni viu, apesar de todas as brigas e reclamações, que sua mãe o amava. Ainda jovem e

bonita, conduziu sua viuvez com a honra que sua educação lhe exigia; nunca mais conheceu outro

homem. Isso foi há vinte anos.

Agora, depois de três dias fora de casa, o encontro repentino com sua mãe morta; calma e

serena deitada naquela cama, arrumada como se já soubesse o que estava por acontecer. Ernâni

chegou de uma curta viagem no fim da tarde de domingo; abriu o portão e percebeu que algo não

estava certo. A quietude da casa, o ar limpo pela chuva, o cheiro de terra molhada. A casa estava

serena, limpa, tudo em seu lugar. Sobre a mesa da cozinha, uma garrafa de café e um bolo coberto

por um pano de prato; apenas o rádio estava ligado, talvez para lhe fazer companhia: não queria

morrer assim sozinha, sentindo-se abandonada. Sua pele pálida, seu cabelo penteado, a foto de seu

pai ainda presa em sua mão esquerda. Ajoelhou-se ao lado da cama, pegou em sua mão e

agradeceu por não estar ali quando de sua morte, e se desculpou por sua covardia. Sabia que ela

queria vê-lo feliz, casado e com uma família. Sempre dizia: “meu filho tu precisas de uma esposa

para se aprumar na vida”. Afinal, é assim que toda mãe gostaria de ver os filhos encaminhados –

como dizia dona Maria. Mas essa felicidade ele não poderia dá-la, e sabia disso.

Na penteadeira, um envelope com uma antiga fotografia dos três na praia. Uma carta.

Agora, só resta providenciar o enterro. Ligou para André.



Deixe uma resposta

WhatsApp