Aconteceu em um hotel no centro

Passava da meia-noite, a chuva fina, teimosa, encharcou por completo a parca roupa. A mala com muda para dois ou três dias trazia abraçada ao peito. Subiu as escadas do hotel. Uma placa classificava o lugar como familiar. De cores duvidosas e cheiro já conhecido, o hall do hotel conta uma recepção escura iluminada por lâmpada cansada. Das sombras do balcão surgiu uma atendente. Estranhou o sexo oposto, pouco comum a esta hora da noite em estabelecimento tão sombrio. Inquiriu se estava só, olhou para trás para saber se havia mais alguém, confirmou que não. Não, respondeu. A chave presa a um chaveiro de madeira trazia o numero quatro. Terceiro andar segunda porta a direita. Mais escadas , olhou para cima e contou os andares que subiria. As orientações foram seguidas. A porta se abriu; uma cama de solteiro em madeira escura, um criado mudo e sua bíblia, um guarda-roupa, uma imitação barata de Tarsila, um crucifixo pendurado sobre a cama. Do último achou graça. Da janela via-se do outro lado rua um residencial com uma única janela acesa. A moça, debruçada, observava a rua seminua. Abriu meticulosamente a mala e retirou a matula, pôs sobre a cama. Cada peça de roupa foi posta no armário, alinhou os sapatos próximo ao criado mudo. Era inevitável. Sua obsessão por organização não combinava com os seus planos. Pendurou uma indumentária suspeita, uma capa preta e uma cartola com detalhes vermelhos. Sobre a mesa da cabeceira pousou duas garrafas com cinco litros de água benta, e uma estaca de madeira. Estava decidido.

O som vinha da porta, toc, toc toc. Senhor, tem uma moça na recepção querendo falar . Por que não me chamou pelo telefone?Estamos com problemas. O que ela quer? Disse que conhece seu segredo. Eu já não tenho mais segredos, deixe-a subir. Os passos se afastaram, e após um instante tornaram a voltar, agora mais alto e mais agudo, certamente usava salto. A fechadura inclinou-se e a figura de uma mulher apareceu. Pálida com cabelos pintados de vermelhos, olhos escuros com sombras azuis, seus peitos espremidos contra blusa decotada. Não passaria nem uma fio de angústia. Suas pernas longas e finas terminavam em um sapato de salto azul. Faz tempo que não te vejo. Ela fechou a porta. Nos conhecemos? Foi há muito tempo, ainda era uma menininha, mas isso não vem ao caso. O que quero mesmo saber é porque você voltou? Vamos caminhar.

O ar gelado da madrugada invade os pulmões. De cartola e capa, vagavam pelas ruas vazias, um vampiro de cento e oitenta anos e uma jovem vampira de 25 com as pernas de fora, embora o frio não a incomodasse. Ele se queixou da vida solitária, e contou que há pouco fez uma tentativa fracassada de suicídio. Tomou uma overdose de cápsulas de óleo de alho, o que lhe rendeu uma tremenda indigestão e quase morreu, mas foi de fome, suas presas sentiam o aroma do alho a uma distância que não permitia o ataque. Passou semanas se alimentando de saquinhos de sangue que roubava de um hospital. As queixas seguiam e se multiplicavam, agora os vampiros são astros lindos, modelos de sensualidades, ouvi dizer que até brilham. Isso é uma falta de respeito, exclamava apontando o dedo em riste, vivemos a nos esconder não porque apavoramos as pessoas, mas sim porque se bobearmos nos tornaremos pop, arrisco dizer que criariam um campanha, algo do tipo adote um vampiro doe sangue , de qualquer tipo ou qualidade,. Prefiro morrer. Morrer você não pode, disse ela. Desaparecer, escafeder, sumir da face da terra, qualquer coisa, não tenho mais lugar nesse mundo louco. Calma, você tá exagerando. Exagerando? Outro dia conheci um vampiro que se dizia um “vegetariano tipo vegan”, disse que se alimentava de animais de sangue frio, isto é, répteis. Ele sim exagerou. Também só me alimento de animais. Tá certo, vamos voltar. O que sabe sobre eutanásia? Como? Eu-ta-ná-sia, entendeu? Sim, claro, o que sei é que é prática pela qual se abrevia a vida de um enfermo incurável de maneira controlada e assistida por um especialista. Li na internet. Esse sou eu. Planejo me embebedar com água benta. Vi as garrafas, sabes bem que isso foi invenção da igreja. Sei, mas o que fazer?

Voltaram ao hotel, a recepção estava vazia, faltava muito pouco para clarear o dia. Nenhuma palavra. Ela o deixou nas escadas da entrada do hotel, disse para subir e descansar. Antes que entrasse gritou, não vá beber. Não olhou pra trás, apenas subiu e deitou-se.

Apenas um fio de luz vazava por entre as frestas da janela. O silêncio da noite dava lugar aos carros, ônibus e passantes. O dia começava. Em sono profundo com as garrafas vazias tombadas no chão, ele esparramado na cama de bruços. A porta se abriu lentamente e aos pouco, para garantir que não estava sendo observada. Sondou o quarto colocando apenas a cabeça, conferiu que estava só e apagado. Entrou, cheirou as garrafas vazias, deu com os ombros, não conseguiu identificar o que havia. Virou o corpo, colocou suas mãos entrelaçadas na altura do peito, como um defunto, pegou a estaca e apontou bem no meio de seio peito, sobre o que seria o coração, e viu que não possuía nada para bater a estaca, com a mão certamente não conseguiria. Suspirou, seu ombros subiram e desceram em frustração. Pensou por um momento e decidiu ir até o depósito. Ao passar pela porta, logo no primeiro degrau, ele se levantou e disse para si mesmo, Não desista, vai. Ela voltou com uma imensa marreta, mal conseguia segurá-la com as duas mãos. E agora, precisa erguer a marreta com as duas mãos, como faria para a estaca ficar firme apontada para o lugar que seria o coração daquele monstro? Os olhos se abriram. Deixa que eu seguro e colocou a estaca no lugar. Com a testa franzida, baixou a marreta. Obrigado! Do encontro da marreta com a estaca, uma gargalhada sinistra soou. Em seguida, uma explosão em cinzas.

Foi-se a moda antiga.

 



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