Jaleco Branco e tabuleiro na cabeça

Morreu. A notícia saiu da boca de Dona Teresa ainda com grande esforço. Parecia inacreditável.

Todos, ao tomar conhecimento, simplesmente ficavam sem palavras, pasmos. Perdidos em recordações que tocam suavemente nossas mentes, deixando um frescor de felicidade.

“Morreu de quê?” A pergunta seguinte não tinha a menor importância. “Do coração.” Tinha que ser, pessoa generosa que era.

Foram trinta anos passando pela rua. Lembro-me ainda criança: ele chegava, parava em frente ao campo de futebol e ficava dando palpite no jogo; chamava a atenção dos meninos e implicava com meu irmão, de quem ele mais gostava. A vida não deu folga a ele. Embora nunca reclamasse, às vezes escapava um desabafo.

Depois, mudei de cidade. Sempre que voltava a Jacarepaguá ficava atento a sua buzina que literalmente adoçava os finais de semana. Estranhei o dia que passou de carro. O primeiro foi uma Brasília – andava por pura compaixão a ele. Arranjou ajudante. Adoeceu. Fez uma operação, depois outra. Ficou internado. Comprou uma bicicleta e nela carregava dois tabuleiros: um na frente e outro atrás. Passou um tempo na região do lagos. Voltou.

Casei, mudei, tive meus filhos. Acompanhou o crescimento deles nas férias do mês de julho; quando em visita aos familiares nos encontrávamos. Parece mentira, já conhecia o gosto das crianças.

Ele fez parte da minha infância e certamente de muitas outras. Ouvi dizer que da infância vem as melhores memórias que temos desses tempos; posso falar sem medo de errar: minha infância foi iluminada pelo sorriso largo daquele negro lindo que carregava na sua cabeça um tabuleiro de cuscus.

Segue vivo em minhas lembranças uma infância com com gosto de cocada e cuscus.



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