Morena

Acordou com a luz do sol que entrava pela janela aberta. As paredes brancas alaranjadas refletiam a alegria de acordar ao lado dela. Sua pele morena, suavemente nua, recostava em meu peito. Um sorriso leve e sonâmbulo enfeitava seu rosto.
A vida de Olavo sentia-se plena e perfeita. Não podia pensar em felicidade maior. O relógio marcava onze horas, era manhã de sábado. Pensou que em apenas treze horas conheceram-se, namoraram e apaixonaram-se para sempre. Um presente, sim, um presente marcaria como um símbolo o amor arrebatador. Um anel, algo sem fim. Piegas, mas verdadeiro. Passeavam pelas ruas da cidade embebidos de risos, abraços e beijos. Puxou-a para dentro de uma joalheria. A mulher com semblante triste e sério encarava uma bandeja de veludo vinho com joias mal arrumadas. Ao perceber a entrada do casal um sorriso cínico e gentil, cumprimentou-os. 
– Queremos ver anéis. As mãos dadas.
– Com brilhantes? Os olhos agora atentos ao casal.
– Sim, brilhantes e ouro branco.
– Bom gosto. Saiu e retornou.
– Aqui está. Apresentou outra bandeja de veludo vinho.
– Hummm esse é maravilhoso. Olavo escolheu um lindo anel em ouro branco com uma pedra verde, ela achou grande demais. Mas, para agradá-lo colocou no dedo. Ficou largo. Ela sorriu. 
– Olhe esse. Ela pegou um anel menor porém com uma pedra maior, colocou no dedo. Ficou perfeito.
– Pode gravar nossa data? Peguntou Olavo anotando em pequeno papel a data do dia anterior.
– Certamente, ficará pronto na segunda.
Trocavam olhares, sorriam e beijavam-se. Cumprimentaram a mulher e caminharam para porta.
– Quanto ao pagamento? Perguntou a mulher.
– Acertaremos na segunda quando vier buscar o anel. Olavo disse ainda sorridente.
– Não falo desse anel, mas do outro. A mulher falou enquanto esfregava uma mão na outra.
– Outro? Sua expressão mudou.
– Sim o que ela pôs no bolso do vestido.
Olavo sentiu seu rosto ficar quente, gotas de suor surgiram em torno de seus lábios, seus olhos dilataram-se. Os punhos cerrados caminhou a passos firmes até a mulher, que não se abalou.
– A senhora está me dizendo que ela pegou um anel, isto é, roubou?
– Estou dizendo que tem um anel no bolso do vestido.
Ambos viraram-se em direção a morena que com a mão estendida mostrava o anel. Um silêncio apoderou-se da loja. Seu corpo amoleceu, sentiu seus ombros pesarem, por um instante o mundo havia parado. O som de uma freada na porta da loja interrompeu o transe. Olavo passou as mãos no cabelo, recompôs-se sacou da carteira seu carão de crédito e pagou pelo anel.
Saíram da loja abraçados, caminharam em silêncio até o cruzamento de duas avenidas, o barulho do trânsito era ensurdecedor. Um guarda apitava e gesticulava num frenesi carnavalesco. Agora calmo, beijou sua testa. Ela sorriu.
– Agora vai.  Olavo, segurando-a em seus braços, encarou seus olhos e disse com uma voz rouca e falha.
– Vai. Disse novamente.
– Não me deixe assim, foi apenas um deslise. As lágrimas eram sinceras.
Afastou-se, atravessou a rua sem olhar para trás e nunca mais se encontraram.



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