A solidão é um equívoco, a vida não deveria permitir isso…

Foi a última a se casar. Um casamento arranjado com um rapaz que sofria do mal da

timidez que atrapalha a vida, e com Gentil Tristão não era diferente. Sempre cabisbaixo. Nem o

exército lhe dava forças para olhar para frente.

Faustina nasceu em 1o de março de 1930, eleição de Júlio Prestes para presidência, mas

seus pais não sabiam de quem se tratava. E depois, acabou por não tomar posse, mas isso é outra

história. Faustina sofria de asma e mau humor crônico. Depois de dez anos casada e com duas

filhas, enviuvou. Gentil faleceu em um bordel, vítima de um mal entendido. Foi confundido com

um caixeiro viajante que possuía três famílias.

Faustina seguiu sua vida. Rabugenta que era, implicava com toda a vizinhança: os gatos

de Dona Maricota que derrubavam seu lixo, o cachorro de seu Augusto, a solteirona do final da

rua. Organizava festas, convidava todo mundo e de repente, sem mais nem porque, expulsava os

convidados a toque. Assim ficou conhecida; os anos passaram e as filhas mudaram-se, as visitas

ficaram raras e só lhe restaram as plantas, com quem conversava. Ligava o rádio para elas, que

respondiam esplendorosas, sempre floridas em abundância.

No seu aniversário de oitenta anos, acordou e pensou que merecia um presente. Arrumou-
se toda e também providenciou uma pequena mala, mas deixou-a sobre o sofá, levando apenas a

bolsa de mão com seus pertences. Fechou a casa e saiu em direção à rodoviária. Destino: praia do

Rio de Janeiro.

Sua cidade ficava a mais de dez horas de viagem e tudo era novidade. Faustina nunca

tinha ido tão longe, mas não sentiu medo, só curiosidade. Olhava tudo que passava rapidamente

pela janela com muita atenção. Depois de algumas horas de viagem, sentiu-se mal e foi Jorge, seu

vizinho de poltrona, que a socorreu. Bebeu um pouco de água e virou-se para dormir.

A praia estava vazia e o mar, calmo. Tirou as sandálias e molhou os pés. Provou da água

e viu o sol se pôr.

Dormiu.



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